Ser livre ou responsável?

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Que quem ama cuida, ou deveria cuidar, isto parece que é já senso comum. Cuidar é tarefa fácil para alguns. Quem sente que nasceu com a responsabilidade em alta ou fez dela um valor, sabe que, se não toma cuidado, quer logo abraçar o mundo: se sente responsável pela pessoa que ama, pela casa, pelo cachorro (e, em tempo de invasão aos laboratórios de pesquisa, por todos os beagles do mundo), por muitos outros animais (baleias inclusas), pela natureza e, enfim, pelo mundo! Já ouvi de gente muito inteligente que, de tanto assumir os problemas dos outros, sente que as vezes lhe falta tempo para viver um pouquinho para si…

Há também quem se sente livre para não se responsabilizar. De qualquer modo, nossa responsabilidade passa pelo crivo de nossa liberdade. Eu escolho sobre o que quero ser responsável. Mas isto é ponto para mim e um problema para o mundo. Me explico: Algumas coisas tem em si um “fator ternura” e daí é fácil querer cuidar. Mas outras coisas acabam sendo deixadas à margem. Me refiro não apenas às pessoas “feias”, mas também aos animais “feios”, e aos espaços feios (inclusive aquele canto da casa que não queremos arrumar) e até aos comportamentos pessoais que há muito nos pedem: “hei, dê uma reorganizada em mim por favor!”

Gosto do que diz um rabino (Irving Bunim) na introdução de sua obra, Ética do Sinai: “Vemo-nos aceitando passivamente um princípio basicamente anglo-saxônico: ‘cuide de seus próprios assuntos.’ Ou, ‘se vir alguém fazendo algo errado, não interfira, isto não lhe diz respeito’. Nada poderia ser mais contrário à abordagem judaica… ” A este respeito, certo filósofo também judeu – o qual, gosto de lembrar, sobreviveu aos horrores da 2ª Guerra Mundial – afirma que o judaísmo entende responsabilidade como responsabilidade por aquilo que não é feito meu, ou por aquilo que nem sequer me diz respeito.

Surge em mim, em nós uma alarmante questão: Como assim? Sou OBRIGADO a ser responsável, até pelo que não é problema meu?  Onde fica então a minha liberdade se as coisas “de fora” me fazem responsáveis por elas? O fato é que as tais coisas “de fora”, isto é as coisas que não são do “meu eu comigo mesmo” nos atingem e nos governam mais do que imaginamos: paixões, encontros, simpatias, violência, assombros… Além disto, é somente na nossa participação em uma rede de relacionamentos, que a nossa liberdade se concretiza nesta ou naquela escolha específica.  Ou seja, somos donos de nós mesmos dentro de um quadro de exigências que o mundo “de fora” nos impõe. Nas palavras do tal filósofo, “não poderíamos ser livres a não ser que as responsabilidades nos dessem oportunidades para o sermos.”

Não se trata portanto de abraçar o mundo, o nome disso é megalomania, mas de contribuir com o que está ao alcance das mãos. Se o mundo dos que nos cercam, que é também o nosso mundo, for um mundo melhor, assim também o será para nós. Mãos a obra?

Para aprofundar:
BUNIM, Irving M. Ética do Sinai. 5ª Ed. São Paulo: Editora Sefer, 2012 , p. 6.
SANTE, Carmine de. Responsabilidade: o eu – para – o outro. São Paulo: Paulus, 2005.
LEVINAS, Emmanuel. Ética e Infinito. Lisboa: Edições 70, 2010.

 (Nota de  boas vindas ao blog: Este texto é a estreia de um espaço no qual quero externar temas que a muito me instigam!  São eles o amor, em todas as suas expressões, e a ética, em toda a sua significância. Todavia não me detive em explicar os significados destas duas tão poderosas palavras. Isto se dará no tempo e de modo direto, ou não!)

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